Jornalista Mariana Macedo
Quando o autismo vira álibi: a urgência de um jornalismo responsável
Caso de violência expõe falhas da apuração jornalística e reacende estereótipos perigosos sobre o autismo.
Inclusão social de pessoas autistas – desafios e conquistas atuais.Por Mariana Macedo de Melo ( Jornalista).
Em julho de 2025, em Natal, uma cena chocou o país: um ex-jogador de basquete agrediu a namorada com mais de 60 socos dentro de um elevador. A violência ganhou as manchetes, mas o que gerou discussão foram as tentativas de vincular o Transtorno do Espectro Autista (TEA) ao ocorrido.
Inicialmente, noticiou-se que o agressor teria se declarado autista como se isso fosse uma justificativa para o crime. Na sequência, a polícia esclareceu que, na verdade, ele alegou que o filho é autista e usou esse argumento para tentar obter prisão domiciliar — mesmo a criança residindo com a mãe.
O episódio expôs uma falha grave da cobertura jornalística: ao priorizar a rapidez da notícia em vez da checagem, parte da imprensa contribuiu para associar, de forma indevida, o autismo à violência. O resultado não é apenas um erro factual, mas um dano social que perpetua estereótipos e compromete o papel informativo do jornalismo, minando anos de luta pela inclusão e pelo entendimento correto sobre este transtorno.
O impacto da desinformação
Para a comunidade autista, esse tipo de cobertura representa um retrocesso doloroso. Marcos Petry, escritor, palestrante e produtor do canal Diário de um Autista, compartilha sua indignação:
“Me sinto muito mal com tudo isso. Isso tende a reforçar imagens negativas e preconceitos já existentes sobre o autismo.”
Ele destaca o risco de generalizações equivocadas:
“A agressividade não é uma característica do espectro autista. Mas uma notícia como essa reacende esse estereótipo, e as pessoas voltam a olhar o autismo com desconfiança.”
Petry também alerta para o aumento da especulação em ambientes escolares, comunitários e familiares, alimentado por uma cobertura rasa e sensacionalista.
O papel do jornalismo responsável
Diante de episódios como esse, o compromisso ético do jornalismo se torna ainda mais evidente. Para Petry, a base da boa apuração é o conhecimento aprofundado:
“Quando um jornalista se depara com um caso envolvendo autismo, ele precisa estudar, entender o que é o espectro. Não pode se render à especulação.”
Ele reforça que o jornalista é, antes de tudo, um formador de opinião e tem a responsabilidade de informar com precisão:
“O jornalista precisa expandir seu escopo de atuação. Isso significa deixar de lado o imediatismo e buscar fontes confiáveis e representativas.”
Emoções e autismo: mitos e realidades
Um dos mitos persistentes sobre o autismo é o de que pessoas autistas não sentem emoções. Marcos Petry combate essa ideia com veemência:
“O autista sente, sim. Sente raiva, tristeza, medo. A diferença está na forma de expressar esses sentimentos.”
Ele conta que recorre a estereotipias — como balançar o corpo ou estalar os dedos — para lidar com a raiva e a frustração, práticas que o ajudam na organização sensorial e emocional. Essas ações podem parecer estranhas, mas são recursos importantes para a auto regulação do autista.
A falsa ideia de frieza emocional, segundo Petry, afasta a sociedade das pessoas autistas e alimenta o isolamento. Ele relata que muita gente ainda hesita em incluir autistas em grupos, escolas e projetos por acreditar que eles não se conectam com os outros.
Caminhos para a aceitação e inclusão
Para Petry, é fundamental dar voz à neurodiversidade e envolver todos os setores da sociedade nesse processo:
“Precisamos de campanhas que incluam a família, a escola e a comunidade. Só assim vamos entender que essas pessoas existem, estudam, trabalham e, em breve, serão adultos com direitos e deveres.”
Ele também destaca o papel do poder público e dos meios de comunicação no fortalecimento da inclusão:
“Uma vez, ouvi um prefeito dizer que sonhava com autistas como ‘pagadores de impostos’. Isso me marcou. É sobre pertencimento. Precisamos ser vistos como cidadãos plenos.”
Além disso, Petry defende o incentivo à produção de conteúdo digital construtivo, feito por pessoas autistas:
“Hoje ainda se vê muito o modelo da pessoa com deficiência eternamente ajudada. Mas queremos voar com nossas próprias asas, com autonomia e apoio de uma sociedade mais consciente.”
A principal bandeira de Marcos Petry é a conscientização que compreende que, quanto mais informação de qualidade circular, menos espaço haverá para a especulação. Isso vale para o autismo e para todas as condições que compõem a neurodiversidade humana.
Para aprofundar esse debate, conversei com a fonoaudióloga Flavia Campos Salles, que traz a perspectiva clínica sobre a comunicação e o autismo.
Entrevista Ping Pong: Como a comunicação pode ser a ponte para a inclusão?
Mariana Macedo (jornalista): Na entrevista que você acompanhará abaixo, vamos falar sobre como a comunicação pode ser uma ponte para a inclusão. Para isso, conversei com a fonoaudióloga Flavia Campos Salles, que tem mais de 30 anos de experiência e é mestra pela PUC-SP. Com sua expertise em linguagem e transtornos motores de fala, ela nos ajuda a compreender melhor os desafios do autismo e da neurodiversidade.
Mariana Macedo (jornalista): Flavia, como a dificuldade de comunicação impacta o comportamento emocional de pessoas autistas, e por que compreender essa dinâmica é importante?
Flavia Salles (especialista): A dificuldade de comunicação impacta o comportamento emocional de qualquer pessoa. Vivemos em relações sociais e o ser humano precisa do outro para troca, aprendizado e evolução. A comunicação, seja verbal, por Libras, escrita ou aumentativa, permite expressar emoções, frustrações e conquistas. Quando ela falha, sofremos diretamente o impacto do interlocutor e do que esperamos alcançar. Não dá para dissociar comportamento e linguagem; as coisas andam juntas. Obviamente, se você tem um impacto negativo na sua comunicação, terá o mesmo impacto no seu comportamento emocional.
Mariana Macedo (jornalista): A ausência de uma comunicação funcional pode levar à frustração?
Flavia Salles (especialista): Sim. É o que acontece em casos de afasia, por exemplo, onde a pessoa compreende, mas não consegue se expressar. Ela percebe que o que está transmitindo não é eficaz. É como ir para um país estrangeiro sem dominar a língua: você quer pedir algo simples, mas a incapacidade de se comunicar gera frustração. Esse é o maior conflito: a consciência de não estar sendo eficaz na comunicação para atingir os objetivos desejados.
Mariana Macedo (jornalista): Flavia, existem recursos como a comunicação aumentativa que podem prevenir comportamentos agressivos em autistas, ou a relação é mais complexa?
Flavia Salles (especialista): Não diria que a comunicação alternativa e aumentativa vai prevenir comportamentos agressivos, mas auxilia, sim, porque lida com outro tipo de frustração. Vemos muito isso em crianças pequenas, em fase de aquisição de linguagem com dificuldade inicial: a tendência é responder motoramente, como morder ou bater. Mas isso não é uma regra. Não dá para dizer que uma pessoa com comportamento agressivo tem dificuldade de comunicação. É uma linha muito tênue. Apesar de as duas coisas estarem entrelaçadas e fazerem parte do indivíduo, não se pode fazer essa dicotomia. Você pode ter comportamentos mais agressivos por dificuldade de comunicação verbal, principalmente na primeira infância, por falta de recursos linguísticos e emocionais. Mas quadros psiquiátricos, por exemplo, podem levar à agressividade sem que haja qualquer relação com a linguagem. É preciso ter cuidado com essa associação.
Mariana Macedo (jornalista): Marcos Petry critica o “recorte de leitura” que o jornalismo muitas vezes faz, gerando especulação. Você já presenciou situações em que crises de pessoas autistas foram mal interpretadas como agressividade justamente por esse desconhecimento ou “recorte de leitura” da condição?
Flavia Campos Salles (especialista): Sim, já presenciei, principalmente com crianças. Acontece de crianças terem um acesso de raiva ou algo similar e serem mal interpretadas. A escola, por exemplo, pode achar que a criança é mal-educada, quando na verdade ela precisa de acolhimento, direcionamento ou mediação para a comunicação. Nesses casos, uma disputa por um brinquedo pode ser interpretada como agressividade por quem está de fora, sem o devido cuidado e sem o olhar para a singularidade da situação. As pessoas fazem um recorte de leitura, olhando apenas um lado do prisma, sem ver o todo. É essencial tentar compreender o que realmente aconteceu para fazer uma intervenção adequada e acolher. Nós, adultos, também temos rompantes de raiva, como chutar algo ou bater uma porta, que são comportamentos intensos, mas que são uma forma de linguagem intimamente ligada à situação e não têm relação com agressividade patológica. Temos limites e um controle inibitório.
Mariana Macedo (jornalista): Como podemos promover a empatia no processo de comunicação entre pessoas autistas e seus interlocutores, pavimentando o caminho para uma sociedade verdadeiramente inclusiva, como anseia a comunidade autista?
Flavia Salles (especialista): A empatia precisa acontecer com todo mundo, a toda hora. Quando nos colocamos no lugar do outro, seja ele quem for, sem julgamentos, sem preconceitos, sem nenhum rótulo, estamos abertos e não haverá problema de comunicação. Estaremos dispostos a ouvir e auxiliar da melhor maneira possível. A questão da empatia é muito maior do que qualquer “receitinha de bolo” ou dicas. É muito mais sobre valores. Quando temos empatia com a humanidade, teremos uma comunicação mais eficaz, independentemente de a pessoa estar ou não no espectro, ou de ter qualquer patologia. Se parássemos com esse monte de rótulos e preconceitos, certamente todas essas questões teriam outras características e não seriam do jeito que são.
Mariana Macedo (jornalista): Ao ouvir Flavia Salles e lembrar da crítica de Marcos Petry, fica claro que a comunicação é um ponto central quando falamos de inclusão. Numa sociedade apressada em rotular e lenta em escutar, precisamos de mais empatia e menos estigma. O jornalismo, em especial, tem a responsabilidade de investigar com rigor, comunicar com respeito e acolher com humanidade. Entre o silêncio e o preconceito, a escolha deve ser sempre pela escuta — e pela busca de uma sociedade que compreenda, em vez de julgar.
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Mariana Macedo é Jornalista e Escritora.
📲 Instagram: @marianamacedojornalista / @movimentoconexaoinclusiva
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