Jornalista Mariana Macedo
O reality que eu participaria (se existisse)
Não penso bobagens. Penso ideias. Penso possibilidades. Penso futuros.
O reality que eu participaria (se existisse)Por Mariana Macedo
Há noites em que o sono simplesmente não vem. Não por ansiedade comum, mas porque o TDAH resolve abrir todas as abas do cérebro ao mesmo tempo, geralmente por volta das três da manhã. Nessas horas, enquanto o mundo dorme e meu corpo com paralisia cerebral tenta, em vão, negociar um acordo de paz com o travesseiro.
Não penso bobagens. Penso ideias. Penso possibilidades. Penso futuros.
Foi numa dessas madrugadas insones que a pergunta apareceu, clara como uma notificação impossível de ignorar: e se existisse um reality show onde eu pudesse ser apenas… eu?
Não qualquer reality. Não os de drama fabricado, onde a tragédia do dia envolve comer insetos para entretenimento alheio. O reality que imagino é outro. Um programa onde o centro não é a limitação, palavra que me cansa, mas a potência. Onde a vida aparece como ela é: bagunçada, difícil, engraçada, cansativa, bonita. Real.
Nesse reality, eu não entraria como “a participante com deficiência”. Entraria como Mariana. Jornalista. Escritora. Idealizadora do Conexão Inclusiva. A que esquece onde colocou as coisas segundos depois. A que fala demais quando se empolga. A que tem opiniões fortes, dias acelerados e outros em que o corpo simplesmente pede pausa.
A casa onde eu não precisaria explicar nada
Existe uma cena clássica em realities: alguém com deficiência entra na casa e, de repente, ninguém sabe onde colocar as mãos, os olhos, as palavras. Ou pior: a produção corre, aflita, para improvisar “adaptações de última hora”.
No reality que eu participaria, isso não existiria.
A casa já nasceria inclusiva. Circulação ampla. Comunicação acessível. Libras, legendas, audiodescrição. Tecnologia assistiva integrada desde o projeto, não como favor, mas como premissa. Eu não teria que explicar, de novo, por que faço as coisas do meu jeito. Nem ouvir: “mas você consegue?”.
Eu entraria pela porta — aquela porta larga, sem degraus — e respiraria aliviada. Não como quem chega a um lugar especial, mas como quem finalmente chega a um lugar normal. Um lugar pensado para todo mundo.
Gente de verdade, não “cases inspiracionais”
O elenco seria como a vida insiste em ser: diverso.
Pessoas com deficiências físicas, sensoriais e intelectuais. Neurodivergentes. Idades diferentes. Temperamentos incompatíveis. Histórias que não cabem em legenda motivacional.
Teria a mulher sagitariana, briguenta e cadeirante. O rapaz que faz stand-up e é cego. A mulher que cozinha maravilhosamente, odeia barulho e é autista. O homem que toca violão, é péssimo perdedor no truco e tem síndrome de Down. E eu. A Mariana.
Ninguém estaria ali para “superar a si mesmo”, pois isso seria cansativo. Estaríamos ali para viver. Para conviver. Para mostrar quem somos: imperfeitos, interessantes, contraditórios. Humanos.
Eu entraria porque quero. Porque tenho o que dizer. Porque seria interessante estar ali. Não para inspirar ninguém — ideia pesada demais para quem só quer existir.
As provas que fariam sentido
Chega de desafios baseados em resistência física que flertam com a exaustão gratuita. Neste reality, as provas teriam propósito.
Seriam desafios ancorados em competências reais: trabalho em equipe, comunicação, criatividade, resolução de problemas do cotidiano, liderança compartilhada e tomada de decisão coletiva. Tudo seria pensado e curado por uma equipe técnica diversa e qualificada, preparada para lidar com as complexidades do projeto sem explorar vulnerabilidades. Nesse núcleo estariam educadores, designers inclusivos, psicólogos sociais, pessoas com diferentes deficiências e uma equipe de audiovisual comprometida com a narrativa ética do programa.
Imagino, por exemplo, uma prova em que o grupo recebe a missão de criar uma experiência gastronômica completa para um convidado especial. O verdadeiro desafio não estaria no prato final, mas no processo: estruturar um sistema de comunicação eficiente, distribuir funções a partir das habilidades — e não das deficiências — e garantir que o resultado coletivo alcance um padrão de excelência sensorial e acessível.
Outra prova iria além da simples reorganização da casa. A equipe seria desafiada a transformar um espaço público limitado, como uma sala comunitária ou uma área de convivência do programa, em um ambiente plenamente acessível e funcional para um dia temático. Mobilidade, estímulos sensoriais (luz, som, textura), sinalização universal, segurança e conforto para diferentes perfis precisariam ser considerados. Com orçamento restrito, os recursos teriam de ser adaptados de forma criativa. O resultado seria apresentado a um júri formado por especialistas em design universal e ergonomia.
Em um nível ainda mais estratégico, um parceiro real — uma ONG ou um órgão público — apresentaria um problema concreto de conscientização social. Em tempo recorde, a equipe precisaria compreender a causa, definir um público-alvo diverso, criar o conceito e produzir o protótipo de uma campanha multimídia acessível. Isso poderia incluir um vídeo com audiodescrição e legendas, um post para redes sociais com descrição de imagem, um jingle com interpretação em Libras e um texto em linguagem simples e de leitura fácil. A avaliação levaria em conta a eficácia, a criatividade e a coerência da mensagem nos diferentes formatos e mídias.
No fim, esses formatos deixariam claro algo essencial: pessoas com deficiência, diante de desafios genuínos, vivem exatamente a mesma complexidade humana que qualquer outro participante. A tensão do prazo, a alegria de uma boa ideia, a frustração de um conflito e a satisfação profunda de uma conquista construída em conjunto.
A convivência possível
Dentro da casa, eu faria o que faço na vida: conversaria, riria, debateria, ajudaria, brigaria quando fosse preciso e pediria ajuda quando fosse necessário.
Alguns diriam que falo demais. Outros, que sou ótima de papo. Alguém me acharia teimosa. Outro, determinada. Teria amigos. Teria desafetos. Pessoas que eu não suportaria e vice-versa.
Como acontece quando você junta doze pessoas em qualquer espaço.
A diferença é que, pela primeira vez, ninguém estaria ali como símbolo. Nem como representação. Nem como álibi moral da produção.
Seríamos participantes. Ponto.
A edição que não me transformaria em personagem
Nada de trilha dramática quando eu caminho. Nada de câmera lenta para ações banais. Nada de transformar meu corpo em espetáculo ou lição de moral.
Mostrariam o que mostram de qualquer um: meus dias bons e ruins, minhas conquistas e frustrações, minhas risadas e meus silêncios, meus momentos acelerados e aqueles em que o mundo pede pausa.
Sem romantizar. Sem infantilizar. Sem fazer da deficiência o enredo.
Por que eu participaria
Porque sei o que é ser subestimada. Sei o que é abrir a boca e ver o espanto quando percebem que você é articulada, inteligente, engraçada. Sei o que é ouvir que o TDAH é desorganização, quando na verdade é um cérebro com oitenta abas abertas. Sei o que é provar, todos os dias, que você é capaz.
Por isso criei o Conexão Inclusiva. Por isso escrevo. Por isso subo em palcos, mesmo quando a ansiedade quase me convence a desistir.
E por isso eu participaria desse reality.
Não para representar. Não para ser exemplo. Mas porque existe uma menina com deficiência, em algum lugar do Brasil, que precisa ligar a TV e se reconhecer. Não como superação, mas como existência.
Alguém que trabalha, erra, sonha, se cansa e recomeça.
Alguém complexa demais para caber em um rótulo.
O prêmio que realmente importaria
Se eu ganhasse, o prêmio não seria só dinheiro — embora ele importe, sim. Seria poder expandir o Conexão Inclusiva. Viabilizar projetos. Abrir portas reais.
Mas o maior prêmio seria outro: ter participado de algo onde fui tratada como todo mundo. Onde ninguém me aplaudiu por levantar da cama. Onde ninguém me chamou de coitada nem de heroína.
Onde eu fui, simplesmente, participante.
Esse reality não seria “sobre deficiência”. Seria sobre pessoas.
E talvez, pela primeira vez, quem assistisse percebesse uma verdade incômoda e libertadora: o que nos iguala não é o corpo nem a mente. É a experiência radical, vulnerável e profundamente humana de existir junto.
E eu estaria lá.
No jogo.
Na casa.
Na vida que acontece quando as câmeras ligam.
Porque quando o lugar é de verdade para todo mundo, ele finalmente é meu também.
Mariana Macedo é jornalista, escritora, palestrante e idealizadora do movimento Conexão Inclusiva. Tem paralisia cerebral, TDAH e a certeza de que merece ocupar qualquer espaço — inclusive a televisão. Enquanto esse reality não existe, segue construindo inclusão real, todos os dias, nas redes e fora delas.
Meu Livro:

📲 A venda deste livro está disponível pelo WhatsApp: +55 11 97155-4526
Mariana Macedo é Jornalista e Escritora.
📲 Instagram: @marianamacedojornalista / @movimentoconexaoinclusiva
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