Seja bem-vindo
Cotia,26/04/2026

  • A +
  • A -
Publicidade

Jornalista Mariana Macedo

O dia em que descobri que minha voz existe

Tem dias em que você acorda achando que vai fazer uma coisa simples — tipo testar um app no celular do tio — e acaba abrindo uma porta que nem sabia que existia.

Mariana Macedo
O dia em que descobri que minha voz existe O dia em que descobri que minha voz existe

Tem dias em que você acorda achando que vai fazer uma coisa simples — tipo testar um app no celular do tio — e acaba abrindo uma porta que nem sabia que existia.

Foi assim comigo, no final de janeiro de 2026.

Eu só queria ver se dava para instalar o Project Relate no iPhone dele. Coisa rápida.

Tentativa quase casual. Não deu certo. Mas, no meio da busca, apareceu outro nome:

Voiceitt.

Joguei no Gemini para entender o que era.

E foi aí que a história mudou de tamanho.

Porque não apareceu só a explicação de um aplicativo. Apareceu um ecossistema inteiro.

Um mercado de Voice AI voltado para acessibilidade — vivo, ativo, muito mais maduro do que eu imaginava.

Foi como acender a luz de um cômodo que, até então, eu nem sabia que fazia parte da casa.

Encontrei empresas como a Whispp, da Holanda, e a Voiceitt, de Israel. Mas o que me prendeu não foi apenas o produto. Foi a arquitetura por trás dele.

Eles trabalham com Speech-to-Speech em tempo real para fala residual funcional. Não é o caminho tradicional de transformar fala em texto para depois gerar uma voz artificial.

Parece técnico. Mas, no fundo, é filosófico.

Porque, pela primeira vez, eu vi uma tecnologia que não parte da lógica de “ou você fala padrão, ou vira texto”. É uma arquitetura que reconhece a existência da voz — mesmo quando ela não cabe no molde esperado.

Uma tecnologia que não te converte.

Que te preserva.

Eu ainda não sei se isso vai funcionar para mim. Mas, honestamente, só o fato de essa arquitetura existir já desloca o mundo alguns centímetros para a frente.

Muda a forma como eu me enxergo.

Muda o horizonte.

Muda o futuro possível.

Quando a peça do Google entrou no tabuleiro

Fevereiro de 2026 chegou trazendo mais uma camada.

Descobri que o Google já possui uma plataforma de Speech-to-Speech, hoje focada principalmente em tradução entre idiomas. Tecnicamente impressionante. Mas ainda insuficiente para um ponto crucial: ela não contempla, de forma adequada, falas não padrão.

Foi nesse momento que a estratégia ficou cristalina na minha cabeça.

Primeiro, uma pré-campanha educativa.

Depois, a campanha principal para trazer o Project Relate para o Brasil.

E, principalmente, abrir diálogo com o Google para que essa tecnologia evolua dentro do próprio Relate — com foco real em acessibilidade para pessoas como eu.

O Project Relate é uma ferramenta experimental do Google que usa inteligência artificial para ajudar pessoas com fala atípica a se comunicarem com mais clareza. O aplicativo oferece transcrição em tempo real, repetição de frases por voz digitalizada e modelos personalizados de fala que podem ampliar — de verdade — a autonomia comunicacional.

Numa pesquisa rápida, encontrei estimativas de que, com mobilização e prioridade técnica, uma solução mais completa poderia surgir em 15 a 20 meses.

Não é amanhã.

Mas também não é ficção científica.

E a decisão de focar no Google é deliberada.

Não apenas pelo alcance global — que é imenso —, mas porque, até agora, eles são uma das poucas empresas que mencionam explicitamente condições neurológicas, como a paralisia cerebral, em suas iniciativas de tecnologia de fala.

Eles nos enxergam.

Ainda que, por enquanto, principalmente no papel.

A lógica que sempre nos pediram

Tem uma coisa que só quem vive isso entende.

Durante anos, a tecnologia de voz partiu de um pressuposto silencioso: você precisa se adequar. Falar “direito”. Articular melhor. Treinar mais. Se moldar ao padrão para ser reconhecido.

E, por muito tempo, eu aceitei isso como se fosse a ordem natural das coisas. Aceitei a ponto de, em alguns momentos da vida, me ver disposta a considerar caminhos muito mais invasivos — desde cirurgias cerebrais complexas até a ideia de implantar dispositivos na cabeça — na esperança de que, talvez assim, minha comunicação fosse finalmente compreendida como ela merece.

Não era sobre vaidade. Era sobre ser ouvida.

Mas o Speech-to-Speech vira essa lógica do avesso.

Ele diz: “A sua voz já existe. Vamos trabalhar com ela — não contra ela.”

E, pela primeira vez, eu sinto — com um alívio difícil de colocar em palavras — que talvez eu não precise chegar a extremos para ocupar o meu espaço de comunicação.

Talvez a tecnologia, finalmente, esteja começando a fazer o caminho inverso: vir até nós.

Isso não é caridade tecnológica. Não é gentileza de design.

É reconhecimento.

Reconhecimento de que a minha voz — do jeito que ela é — merece existir no espaço digital. Merece ser preservada, não traduzida como se fosse um erro a ser corrigido.

E, para mim, isso é revolucionário.

Porque não muda só a ferramenta.

Muda a premissa.

Muda o campo do possível.

Muda quem eu posso ser no mundo.

O sonho que sempre esteve aqui

Não foi por acaso que eu escolhi o jornalismo. Meu maior sonho profissional depende, diretamente, disso: eu quero ser telejornalista.

Eu sei como isso pode soar para algumas pessoas. Uma mulher com paralisia cerebral, com fala não padrão, querendo estar na TV. Na bancada. No link ao vivo. Narrando o mundo.

Mas eu nunca escolhi o jornalismo pela voz perfeita.

Eu escolhi pela força da comunicação. Pelo peso que existe quando alguém narra a realidade com responsabilidade.

Porque aprendi — na prática — que jornalismo não é sobre ter a voz “certa”. É sobre ter algo verdadeiro para dizer.

O problema nunca fui eu.

Foi a tecnologia que ainda não tinha chegado onde eu precisava que ela chegasse.

E, agora, pela primeira vez, eu consigo ver esse encontro no horizonte.

Quando a campanha deixou de ser ideia

Outubro de 2025.

No dia 31, eu tomei a decisão: a campanha ia sair do papel.

Até ali, era pesquisa. Era hipótese. Era possibilidade.

A partir dali, virou ação.

O primeiro nome foi “Libera Project Relate BR!” — um chamado direto para que a tecnologia finalmente suportasse o português brasileiro.

Hoje, o Project Relate já está disponível em dez países. Nenhum na América do Sul.

Trazer essa ferramenta para o Brasil seria mais que uma atualização de produto. Seria um marco de acessibilidade digital para todo o continente.

Em novembro, senti que o movimento precisava respirar melhor.

O nome precisava carregar mais coletivo, mais futuro.

Nasceu então: Juntos pelo Relate no Brasil.

Porque nunca foi só sobre mim.

É sobre todas as pessoas com paralisia cerebral, ELA, Parkinson e tantas outras condições que atravessam a fala.

É sobre existir digitalmente sem pedir licença.

Sem abrir mão de quem se é.

É sobre mostrar — com dados, com mobilização, com presença — que nós estamos aqui.

O futuro que começou a se mover

Eu ainda não sei se essas ferramentas vão funcionar perfeitamente para mim.

Mas, pela primeira vez em muito tempo, o futuro não parece depender apenas da minha capacidade de me adaptar ao mundo como ele é.

Parece — finalmente — que o mundo tecnológico começa a se mover alguns passos na nossa direção.

E, quando esse momento chegar — não se, mas quando — eu vou estar pronta.

Eu já me formei. Já estudei. Já aprendi o ofício.

Agora é questão de tempo.

De engenharia.

De prioridade.

De a tecnologia me alcançar.

E eu vou estar aqui.

Esperando.

Trabalhando.

Insistindo.

Porque telejornalismo nunca foi sobre a voz que você tem.

É sobre a história que você conta.

E a minha história, agora, também é uma campanha.

Juntos pelo Relate no Brasil.

Juntos — porque ninguém deveria ter que lutar sozinho pelo direito de ser ouvido.

Meu Livro:


📲 A venda deste livro está disponível pelo WhatsApp: +55 11 97155-4526


 

 Mariana Macedo é Jornalista e Escritora.

📲 Instagram@marianamacedojornalista / @movimentoconexaoinclusiva



📌 Portal Prefeituras News – Informação que transforma e aproxima você da sua cidade.

Nenhum dado sensível ou especulativo foi incluído. O conteúdo foi produzido inteiramente de forma original, respeitando princípios éticos e evitando qualquer tipo de plágio.

Os textos, imagens, áudios e vídeos publicados pelo Portal Prefeituras News são protegidos pela Lei de Direito Autoral. Lei de Direitos Autorais | LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998.


A Noticia que Constrói!

Publicidade: Terceirização de mão de Obra.


Publicidade: Emprego News - Temos Vagas na sua Região.

Quer Anunciar no Portal Prefeituras News > [Clique Aqui!]



COMENTÁRIOS

LEIA TAMBÉM

Buscar

Alterar Local

Anuncie Aqui

Escolha abaixo onde deseja anunciar.

Efetue o Login

Recuperar Senha

Baixe o Nosso Aplicativo!

Tenha todas as novidades na palma da sua mão.