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Cotia,04/02/2026

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Solange Aroeira

Violência doméstica e familiar: o que ainda precisamos enxergar

A verdade é que, ainda hoje, as mulheres precisam provar que estão falando a verdade.

Solange Aroeira
Violência doméstica e familiar: o que ainda precisamos enxergar Violência doméstica e familiar

A cultura da descrença

É difícil pensar que, em pleno século XXI, ainda existam pessoas que pegam um ou outro caso isolado — situações em que mulheres, por má-fé, distorcem a verdade — e usam isso para colocar em dúvida todas as denúncias de violência doméstica. É como se bastasse um caso de mentira para desacreditar milhares de histórias reais de dor, medo e sobrevivência.

A verdade é que, ainda hoje, as mulheres precisam provar que estão falando a verdade. Precisam justificar cada gesto, cada palavra, cada lágrima. E, enquanto isso, leis como a Maria da Penha, que é a base de toda a proteção contra as violências domésticas e familiares, seguem sendo questionadas, minimizadas ou atacadas — como se defender mulheres fosse um exagero, um privilégio ou uma injustiça.

Os números da violência

Os dados mais recentes mostram a gravidade e a urgência do tema. Somente no primeiro semestre de 2025, foram registrados 718 casos de feminicídio no Brasil, segundo o Ministério das Mulheres. A maioria das vítimas foi morta dentro de casa, por parceiros ou ex-parceiros — o que reforça que, para muitas mulheres, o perigo mora justamente onde deveria haver segurança.

De janeiro a julho de 2025, o canal Ligue 180 recebeu 86.025 denúncias de violência contra mulheres. O número revela não apenas a dimensão do problema, mas também o aumento da coragem de denunciar. Ao mesmo tempo, muitas vítimas continuam em silêncio, por medo, dependência emocional ou financeira.

Outro dado que merece destaque é o recorte racial: 64,2% das vítimas de feminicídio são negras, 28,9% brancas, 3,9% amarelas e 2,3% indígenas. Esses números escancaram a desigualdade estrutural e racial que atravessa a violência de gênero no país.

No estado de São Paulo, a situação também preocupa: 221 feminicídios em 2023 e 226 até novembro de 2024, o maior número desde que o crime passou a ser contabilizado separadamente. Em quase 70% dos casos, as vítimas foram mortas dentro da própria casa.

Esses números não são apenas estatísticas — são vidas interrompidas. Cada registro representa uma mulher que perdeu o direito de existir e uma família destruída pela violência.

Masculinidades e silêncios

Quando falamos de mulheres, falamos também de famílias inteiras. As mulheres são, em grande parte, o alicerce dos lares. São mães solo, trabalhadoras, cuidadoras e chefes de família. Sustentam as casas, educam os filhos e, muitas vezes, enfrentam a violência de parceiros abusivos, negligentes ou indiferentes.

Então, por que não falamos mais sobre o perfil masculino desses agressores? Por que é tão difícil questionar a masculinidade que abandona, que agride, que nega responsabilidades?

Falar sobre violência doméstica não é atacar os homens — é falar sobre os homens que escolhem violentar e sobre uma cultura que ainda os protege. Claro que existem homens incríveis: pais presentes, companheiros amorosos, amigos leais. Mas é preciso coragem para olhar para o outro lado — aquele que muitos preferem não ver.

Enquanto se tenta desqualificar as mulheres com base em exceções, milhares seguem sendo feridas, ameaçadas e mortas. A violência doméstica não é apenas física. Ela pode ser psicológica, patrimonial, sexual ou moral. E todas deixam marcas profundas, visíveis ou não, que afetam a autoestima, o bem-estar e a própria possibilidade de recomeço.

Políticas públicas e esperança

É hora de parar de comparar culpando as vítimas. É hora de reconhecer que a violência contra a mulher é uma questão social, cultural e política — e que só será enfrentada com políticas públicas firmes, com investimento em educação, acolhimento, justiça e igualdade.

Defender as mulheres é defender as famílias. E proteger as famílias é proteger o futuro.

Avanço histórico em Cotia

Nesta semana, a Câmara Municipal de Cotia aprovou o Fundo Municipal das Mulheres, projeto de autoria do Poder Executivo e aprovado por unanimidade pelo Legislativo. A medida representa um marco histórico para a cidade, fortalecendo as políticas públicas voltadas à promoção da igualdade de gênero, ao enfrentamento da violência e ao apoio às mulheres cotianas.

A conquista foi amplamente comemorada pela sociedade civil, conselheiras, lideranças femininas e movimentos sociais, que há anos reivindicavam a criação do fundo como instrumento fundamental para garantir recursos destinados às ações e programas de defesa dos direitos das mulheres.

Procure ajuda

Se você ou alguém que você conhece sofre violência, não se cale.
👉 Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher.
A denúncia é anônima, gratuita e pode salvar vidas.

Referências

  1. Agência Estado. Brasil tem recorde de feminicídios: 4 mulheres são mortas por dia. UOL Notícias, 12 jun. 2025.

  2. Agência Brasil. São Paulo tem recorde de feminicídios em 2023. Brasília, 20 jan. 2024.

  3. Agência Brasil. Quase 70% das vítimas de feminicídio foram mortas dentro de casa em SP. Brasília, 10 ago. 2024.

  4. Ministério das Mulheres. Painel de Indicadores de Violência contra as Mulheres – 1º semestre de 2025. Brasília, 2025.

    Solange R. Aroeira é psicóloga, pedagoga e Secretária da Mulher, Neurodiversidade e Inclusão Social em Cotia (SP).

    📲 Instagram@solangearoeira


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