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Cotia,04/02/2026

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Solange Aroeira

Elucubrações Mentais – Novembro e o Corpo que Habitamos

Muitos só despertam para essa pauta agora porque, fora deste mês, não se sentem parte do debate

Lúcia Rosa / Solange Aroeira
Elucubrações Mentais – Novembro e o Corpo que Habitamos Obra da artista plástica Lúcia Rosa

Por: Solange Aroeira

O Brasil volta os olhos para a Consciência Negra no mês de novembro. O dia 20 é um marco oficial, mas deveria ser mais que uma data: um lembrete de tudo o que insistimos em esconder enquanto sociedade. Muitos só despertam para essa pauta agora porque, fora deste mês, não se sentem parte do debate — seja na educação ou na política.

A verdade é clara: as pautas de inclusão social são permanentes, são para toda a vida. Novembro aflora vozes que, durante o ano, enfrentam o receio de não “estar no contexto” ao falar sobre racismo. É irônico e triste que ainda precisemos de um calendário para validar experiências estruturantes na formação do país.

Ao pensar na política, reconheço o quanto é fundamental rever nossa história para construir um mundo mais justo. O corpo que habitamos enquanto brasileiros — mestiço, plural, miscigenado — carrega histórias que se cruzam, chocam e se impõem desde sempre.

  • Como nos vemos no espelho?

  • Onde nos colocamos?

  • Como imaginamos o outro nesse mesmo país?

O corpo social brasileiro foi moldado pela negligência. O ideal de branqueamento está documentado nas ruas, nos olhares que se desviam e nos lugares negados a tantos. E, para falar disso, é necessário voltar à ferida inicial: o escravismo.

Povos inteiros foram sequestrados, arrancados de suas terras e trazidos nos navios negreiros. A brutalidade foi tamanha que o comportamento dos tubarões mudou, relatam historiadores, após tantos corpos serem arremessados ao mar. Alguns, em último ato de inconformismo e dignidade, saltaram por conta própria, recusando a servidão.

Estamos aqui porque nossos antepassados resistiram, porque não foram comidos pelos tubarões. Como menosprezar essa história? Como chamá-la de “mimimi” (palavra atual para continuar negligenciando o óbvio)? Como dizer que transformamos dor em vitimismo?

O povo negro sequestrado nunca teve um lugar digno reservado — apenas a servidão, o escravismo e, depois dele, a segregação marcada pelo tom da pele e pela não-beleza padronizada pelo olhar eurocentrista e por outros apagamentos. Isso tem nome: racismo estrutural. E isso inclui a falta de oportunidades, a inferioridade imposta por gerações e o peso que recai sobre os mesmos corpos há séculos.

Quando observamos as migrações contemporâneas de povos fugindo de guerras na busca por esperança e tempos melhores, percebemos que o sofrimento nasce da expectativa de um futuro, pelas condições de trabalho oferecidas. Mas não há comparação possível com quem foi arrancado de sua terra à força para ser propriedade. E que fique bem claro: isso não é vitimismo, e sim a história de várias nações de um continente inteiro que foi subjugado. Não podemos comparar dores, e menos ainda anulá-las.

O Brasil possui mestres, líderes e intelectuais que estudam e vivenciam essa realidade, relatando a história como ela é — e não como gostaríamos que fosse. Histórias que foram ensinadas e invisibilizadas nos livros escolares para manutenção de uma narrativa imperial cujos resíduos permanecem até os dias atuais.

Que novembro — e todos os meses do ano — seja oportunidade de ouvir essas vozes e reconhecer o corpo coletivo de um país que precisa enfrentar o que mais insiste em ignorar.

Dados que demonstram a desigualdade racial no Brasil

Para que a reflexão não fique no simbólico, apresento números que comprovam a desigualdade racial histórica e estruturada no país:

  • Taxa de informalidade: Em 2023, foi de 45,8% para negros (pretos ou pardos), contra 34,3% entre brancos, segundo o IBGE.

  • Subutilização da força de trabalho: Chegou a 21,3% entre negros, enquanto o índice foi de 13,5% entre brancos no mesmo período.

  • Rendimento médio por hora: Mulheres negras recebem, em média, R$ 12,13; mulheres não negras recebem quase o dobro: R$ 22,86.

  • Pobreza: Entre as pessoas abaixo da linha de pobreza, 70% são pretos ou pardos. Entre as mulheres em extrema pobreza, quase 40% são pretas ou pardas.

    Reflexões e caminhos

    Esses números reforçam o que a memória histórica nos conta: os corpos mestiços que habitamos não são igualmente tratados na economia, no trabalho e no acesso à dignidade social. A desigualdade é fruto de heranças históricas. Os navios negreiros e sua brutalidade — o sequestro, a travessia, os que se rebelaram e os que não puderam saltar ao mar — deixaram marcas que até hoje aparecem nos indicadores econômicos e sociais.

    Quando dizemos que as causas da Consciência Negra são “para toda a vida”, não é retórica: são vidas inteiras marcadas por uma desigualdade persistente, comprovada por estatísticas.

    Se novembro serve para nos alertar, que seja mais que um mês simbólico. Que os números ecoem em corações e ações:

    • Que líderes políticos e a sociedade civil usem esses dados para pressionar por políticas reais de igualdade — emprego, renda e educação.

    • Que leitores reconheçam que isso não é apenas história, mas um presente vivo, registrado diariamente na geografia social.

    • Que, ao refletirmos sobre o corpo que habitamos, pensemos também no corpo do outro — nas oportunidades negadas e nas vidas ainda aguardando dignidade.

    Reconhecer essas verdades não cria divisões. Restaura aquilo que foi distorcido. E o Brasil precisa dessa restauração tanto quanto precisa de ar.

    Em novembro — e em todos os outros meses — fortaleçamos a escuta, ampliemos o debate e valorizemos as vozes negras que reconstroem nossa história com rigor e dignidade. Essas vozes preservam a memória e apontam soluções para questões que são coletivas, não individuais.

    Novembro é a porta de entrada.
    Consciência é permanência.
    E permanência é ato político.

    E, para finalizar: tem dúvidas ou discorda da visão do texto? Pesquise, questione e informe-se. Pense nisso!


    Visite:

      


    Exposição Cartografias do Corpo Negro:

    Obras da artista plástica Lúcia Rosa

    Shopping Granja Vianna – Piso 1, Loja 227

    De 3 a 30 de novembro. 

    Contamos com a sua presença!


    Solange R. Aroeira é psicóloga, pedagoga e Secretária da Mulher, Neurodiversidade e Inclusão Social em Cotia (SP).

    📲 Instagram@solangearoeira


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