Solange Aroeira
Violência doméstica e familiar: o que ainda precisamos enxergar
A verdade é que, ainda hoje, as mulheres precisam provar que estão falando a verdade.
Violência doméstica e familiar A cultura da descrença
É difícil pensar que, em pleno século XXI, ainda existam pessoas que pegam um ou outro caso isolado — situações em que mulheres, por má-fé, distorcem a verdade — e usam isso para colocar em dúvida todas as denúncias de violência doméstica. É como se bastasse um caso de mentira para desacreditar milhares de histórias reais de dor, medo e sobrevivência.
A verdade é que, ainda hoje, as mulheres precisam provar que estão falando a verdade. Precisam justificar cada gesto, cada palavra, cada lágrima. E, enquanto isso, leis como a Maria da Penha, que é a base de toda a proteção contra as violências domésticas e familiares, seguem sendo questionadas, minimizadas ou atacadas — como se defender mulheres fosse um exagero, um privilégio ou uma injustiça.
Os números da violência
Os dados mais recentes mostram a gravidade e a urgência do tema. Somente no primeiro semestre de 2025, foram registrados 718 casos de feminicídio no Brasil, segundo o Ministério das Mulheres. A maioria das vítimas foi morta dentro de casa, por parceiros ou ex-parceiros — o que reforça que, para muitas mulheres, o perigo mora justamente onde deveria haver segurança.
De janeiro a julho de 2025, o canal Ligue 180 recebeu 86.025 denúncias de violência contra mulheres. O número revela não apenas a dimensão do problema, mas também o aumento da coragem de denunciar. Ao mesmo tempo, muitas vítimas continuam em silêncio, por medo, dependência emocional ou financeira.
Outro dado que merece destaque é o recorte racial: 64,2% das vítimas de feminicídio são negras, 28,9% brancas, 3,9% amarelas e 2,3% indígenas. Esses números escancaram a desigualdade estrutural e racial que atravessa a violência de gênero no país.
No estado de São Paulo, a situação também preocupa: 221 feminicídios em 2023 e 226 até novembro de 2024, o maior número desde que o crime passou a ser contabilizado separadamente. Em quase 70% dos casos, as vítimas foram mortas dentro da própria casa.
Esses números não são apenas estatísticas — são vidas interrompidas. Cada registro representa uma mulher que perdeu o direito de existir e uma família destruída pela violência.
Masculinidades e silêncios
Quando falamos de mulheres, falamos também de famílias inteiras. As mulheres são, em grande parte, o alicerce dos lares. São mães solo, trabalhadoras, cuidadoras e chefes de família. Sustentam as casas, educam os filhos e, muitas vezes, enfrentam a violência de parceiros abusivos, negligentes ou indiferentes.
Então, por que não falamos mais sobre o perfil masculino desses agressores? Por que é tão difícil questionar a masculinidade que abandona, que agride, que nega responsabilidades?
Falar sobre violência doméstica não é atacar os homens — é falar sobre os homens que escolhem violentar e sobre uma cultura que ainda os protege. Claro que existem homens incríveis: pais presentes, companheiros amorosos, amigos leais. Mas é preciso coragem para olhar para o outro lado — aquele que muitos preferem não ver.
Enquanto se tenta desqualificar as mulheres com base em exceções, milhares seguem sendo feridas, ameaçadas e mortas. A violência doméstica não é apenas física. Ela pode ser psicológica, patrimonial, sexual ou moral. E todas deixam marcas profundas, visíveis ou não, que afetam a autoestima, o bem-estar e a própria possibilidade de recomeço.
Políticas públicas e esperança
É hora de parar de comparar culpando as vítimas. É hora de reconhecer que a violência contra a mulher é uma questão social, cultural e política — e que só será enfrentada com políticas públicas firmes, com investimento em educação, acolhimento, justiça e igualdade.
Defender as mulheres é defender as famílias. E proteger as famílias é proteger o futuro.
Avanço histórico em Cotia
Nesta semana, a Câmara Municipal de Cotia aprovou o Fundo Municipal das Mulheres, projeto de autoria do Poder Executivo e aprovado por unanimidade pelo Legislativo. A medida representa um marco histórico para a cidade, fortalecendo as políticas públicas voltadas à promoção da igualdade de gênero, ao enfrentamento da violência e ao apoio às mulheres cotianas.
A conquista foi amplamente comemorada pela sociedade civil, conselheiras, lideranças femininas e movimentos sociais, que há anos reivindicavam a criação do fundo como instrumento fundamental para garantir recursos destinados às ações e programas de defesa dos direitos das mulheres.
Procure ajuda
Se você ou alguém que você conhece sofre violência, não se cale.
👉 Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher.
A denúncia é anônima, gratuita e pode salvar vidas.
Referências
Agência Estado. Brasil tem recorde de feminicídios: 4 mulheres são mortas por dia. UOL Notícias, 12 jun. 2025.
Agência Brasil. São Paulo tem recorde de feminicídios em 2023. Brasília, 20 jan. 2024.
Agência Brasil. Quase 70% das vítimas de feminicídio foram mortas dentro de casa em SP. Brasília, 10 ago. 2024.
Ministério das Mulheres. Painel de Indicadores de Violência contra as Mulheres – 1º semestre de 2025. Brasília, 2025.
Solange R. Aroeira é psicóloga, pedagoga e Secretária da Mulher, Neurodiversidade e Inclusão Social em Cotia (SP).
📲 Instagram: @solangearoeira
📌 Prefeituras News – Informação que transforma e aproxima você da sua cidade.
Os textos, imagens, áudios e vídeos publicados pelo Portal Prefeituras News são protegidos pela Lei de Direito Autoral. Lei de Direitos Autorais | LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998.

A Noticia que Constrói!
Publicidade:
Publicidade: Emprego News - Temos Vagas na sua Região.










COMENTÁRIOS